MABEL VELLOSO
Mabel Velloso


COM A PALAVRA O ESCRITOR
por Mabel Velloso


Minha Jangada (?).
Não fui a Santo Amaro votar, estava no "Talvez" ! Hoje estou aqui. Disse "Sim" ao convite de Mirian Fraga. Pensei no Referendo... Devia ter dito "Não" ! Fosse uma sala de aula eu estaria à vontade. Cantaria com as crianças, brincaria de fazer bonecos de barro, de papel, arraias, barquinhos. No fim tudo estaria certo e os comentários seriam feitos com o olhar de cada uma.

Disse "Sim" e aqui estou. Estou feliz por encontrar tanta gente que gosto e sei que gosta de mim, mas devia ter dito "não". Falar para um público acostumado a ouvir historiadores, acadêmicos... Para que fui responder "sim"? Mas, disse e não podia mais fugir. Vou começar do meu começo: nasci numa quarta feira de cinzas, de um ano que longe vai, minha mãe me aguardando, sentada na sua cama, bem juntinho de meu pai...

Vou dizer porque desejei aprender a ler e a escrever....

Meu pai e minha Ju recebendo telegramas, Código Morse.
Vontade de ler os tracinhos.
Cigana lendo a mão descobrindo o futuro.
Desejo de ler para descobrir segredos...
Escrever para não esquecer o que me acontecia, o que acontecia no quintal, no sótão lá de casa.

Ouvindo histórias em casa, príncipes, princesas, fadas, bruxas. Final: "Felizes para sempre".

Ouvindo histórias no Colégio Nossa Senhora dos Humildes em Santo Amaro, Santos e Santas, vidas de sofrimento. Final - morte e ida para o céu. Gente ruim, para o inferno.

Desejo de misturar as histórias e dar um final mais real, nem tanto céu, nem tanto inferno...

Ginásio Itapagipe: Dr. Adroaldo, Dona Iramaya, Dona Candolina, Prof. Joel e Dona Lourdes, livros e livros ao meu dispor. Dona Iramaya descobriu que eu gostava de escrever poemas... Fez-me esquecer o Zero do Santa Bernadete porque a minha redação sobre o "Dia mais feliz da minha vida" eu escrevi sobre meu passeio aos filtros da Vitória, e o dia tinha que ser o da 1ª Comunhão.

Chegada no Instituto Normal da Bahia, A Biblioteca.
Casa de meus primos Souza Castro, outra Biblioteca.
Leituras diárias. Incentivo dos professores, incentivo de Souza Castro mostrando-me Monteiro Lobato, Castro Alves, Machado de Assis, Humberto de Campos, Manoel Bandeira e tantos outros. Acostumei-me com os livros. Gostava de ler tudo: do Almanaque aos romances que Lindaura dizia serem proibidos 10 - Cinqüenta anos que me formei pelo INB (Incapaz de Negar um Beijo).

Vontade de contar Histórias com a cara dos meninos do meu Curso de Extensão e dos meninos da Escola Leopoldo dos Reis, "Dois Leões."

Todos tão pobres pretos e só ouviam contos de meninos lindos, de cabelos louros, que viviam em palácios, com roupas de veludo. Como falar das tranças de Rapunzel às meninas de trança de nagô ?

Em Santo Amaro na Escola Dr. Araújo Pinho outras crianças iguais às que encontrei em Salvador. Comecei a inventar histórias onde elas pudessem ser a menina ou o menino daquele conto. Assim foram nascendo meus "Contos Infantis", escritos entre os trabalhos em casa.

Com a chegada das minhas filhas e depois dos netos fui contando outras histórias nascidas na hora de ninar.

Os poemas foram chegando e nem eu sabia que era poesia o que eu ia jogando no papel.

Quando me disseram que era poesia tudo aquilo escondido em folhas de caderno, em papéis de enrolar pão, em tiras de rol de roupa achei engraçado e escondi mais ainda! Gavetas !!!

As filhas cresceram e as alegrias e as tristezas que fui vivendo foram ditando versos:

Minhas Filhas
Das alegrias da vida
a alegria maior foi parir minhas meninas
Dos cuidados da vida
O cuidado maior foi criar minhas
Dos receios da vida
O receio maior ver crescer minhas meninas
Das tristezas da vida
A tristeza maior ver chorar minhas meninas
Das esperanças da vida
A esperança maior ver viver minhas meninas.


Depois de Claudionora mostrar meus escritos a Maria Bethânia - encontro com Marialice, Maria Sampaio, Gilda Carvalho, Jacy Franco, Aninha Poeta, fui tendo mais coragem de mostrar meus escritos.

"Me empreste uma casa... vá ali!"

Aninha levou o livro até a Fundação Cultural Dr. Geraldo Machado, Zilah, Claudius Portugal atenderam o pedido de Aninha.

22 de novembro de 1980 o livro "Pedras de Seixo" foi lançado em Santo Amaro, com Banda de Música e tudo! 25 anos ! Este ano Bodas de Prata do meu 1º livro.

Vontade de não mostrar o livro.
Almoço com Claudia e Maria Sampaio no Passeio Público. (O nome do restaurante?)

Os outros livros foram chegando.
Muitos esperaram 20 anos dentro da gaveta!
"Barrinho" saiucom a ajuda de Bete Capinan e Baudomero da Cavalo Marinho com o apoio da Fundação Cultural. "Barrinho" carregou junto "Bonequinhos de Papel"...

"Janelas" consegui publicar graças a Gustavo Falcon pela EGBA.
Poemas Grisalhos graças à Brasken.
"Mato Verde Magia" com a ajuda de Luis Ademir.
Cheguei até a Editora Moderna graças à Bete Capinan e Edinha Diniz.
Coleção Grandes Mestres da Música: Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Também por causa delas cheguei à Callis: Coleção A Luta de Cada Um - Irmã Dulce.

"Donas" foi um prêmio que recebi do Banco Capital.
"Candeias" uma batalha de Bete Capinan na Fundação e a cidade de Candeias.

Com Claudionora publiquei "Gritos d’Estampados", "Mulher nos cantos e na Poesia" e "Poemas Endereçados". Juntas, também fizemos "Cem Horas de Poesia".

Graças à Liana Barreto publiquei "Muito Prazer".
"Terno" um livro que conta e canta o Terno de Reis de Rodrigo, com apresentação de Prof. Cid e capa de Calasans Netosaiu aos trancos e barrancos! Nem gosto de lembrar.


Minha Jangada (?).
Não fui a Santo Amaro votar, estava no "Talvez" ! Hoje estou aqui.



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