Marcos - Há três anos, no dia 6 de maio de 2003, a FSP anunciou que Chico Buarque
havia assinado um documento em apoio a Cuba, que teria sido lido em Havana no dia primeiro
de maio. Não era verdade, mas, dias depois, após reconhecer que havia reproduzido a informação
de uma agência de notícia internacional sem checar a fonte, o estrago já estava feito e mais
uma reputação era posta em xeque. Apenas um ano depois ele iria falar sobre sua relação com
Cuba, de onde esteve mais próximo nos fins dos anos 70 quando promoveu - antes do Buena Vista
Social Club - uma aproximação entre artistas cubanos e brasileiros.
Antonio - "Existe, é claro, para a minha geração, um outro tipo de relação, afetiva,
que vem da revolução cubana. Nos anos 60, aquilo era muito forte para nós. Um exemplo de
resistência. Ainda hoje o ditador Fidel Castro, como gostam de dizer os jornais, inclusive
a Folha, é o único adversário dos Estados Unidos na América Latina que resistiu a golpes de
Estado e assassinatos e está ali. Todos os outros foram depostos ou assassinados. Ele
sobreviveu a vários atentados. Manteve e mantém até hoje uma posição altiva. E isso é algo
que ninguém deve ignorar e que eu admiro. Quanto a fuzilamentos ou a prisão de dissidentes
políticos, fico contrariado, porque não gosto e não concordo com isso. A questão toda é muito
delicada. Eu gostaria que Cuba fosse um país democrático. Agora, eu gostaria de uma maneira,
e o Bush gostaria de outra. Cuba poderia ser hoje o Haiti. Cuba não é. É claro que me desagrada
a idéia de um partido único, de liberdades vigiadas, mas existe ao mesmo tempo a necessidade
de um controle para manter os valores da revolução, que a meu ver são louváveis".
Maria - Contrastando com a postura irresponsável da imprensa, um traço significativo que nos
ajuda ter um retrato mais fiel de Chico Buaque, que completa 62 anos no próximo mês, é vê-lo
como um trabalhador obsessivo na busca pela exatidão de como quer expressar sua consciência.
Capaz de ficar em claro noites e noites em busca das soluções para suas músicas e romances.
E jamais irresponsável. Nesse primeiro de maio de 2006, nosso sarau trata da completude desse
artista que é polígrafo: letrista, dramaturgo e romancista. Um escritor, um trabalhador:
cidadão e artista.
Aninha - Paratodos - O meu pai era paulista, meu avô, pernambucano, o meu bisavô,
mineiro, meu tataravô, baiano. Meu maestro soberano Foi Antonio Brasileiro. Foi Antonio
Brasileiro quem soprou esta toada que cobri de redondilhas pra seguir minha jornada, e com
a vista enevoada ver o inferno e maravilhas. Nessas tortuosas trilhas, a viola me redime,
creia, ilustre cavalheiro, contra fel, moléstia, crime, use Dorival Caymmi, vá de Jackson
do Pandeiro. Vi cidades, vi dinheiro, bandoleiros, vi hospícios, moças feito passarinho
avoando de edifícios, fume Ari, cheire Vinícius, beba Nelson Cavaquinho para um coração
mesquinho. Contra a solidão agreste, Luiz Gonzaga é tiro certo, Pixinguinha é inconteste,
tome Noel, Cartola, Orestes, Caetano e João Gilberto. Viva Erasmo, Ben, Roberto, Gil e
Hermeto, palmas para todos os instrumentistas, salve Edu, Bituca, Nara, Gal, Bethania,
Rita, Clara, evoé, jovens à vista. O meu pai era paulista, meu avô, pernambucano, o meu
bisavô, mineiro, meu tataravô, baiano, vou na estrada há muitos anos: sou um artista
brasileiro.
Mabel - O que não podemos ignorar, apesar dessa espécie de autobiografia de afinidades e influências, é a importância que teve seu pai, o historiador e sociólogo Sergio Buarque de Hollanda, para a formação de Chico. Pra se ter idéia, numa época em que muitos achavam que a saída para o país se dava pela iniciativa das elites esclarecidas, ele vai indicar em Raízes do Brasil, como uma voz solitária entre os intelectuais, que avançar politicamente é atender reivindicações populares, por meio de um regime onde o próprio povo tomasse a direção. Detalhe: isso em 1936.
Marcos - Há poucos dias estamos vendo mais Chico na mídia, por conta do seu novo CD, Carioca, que será lançado neste mês, quase oito anos após o último, Cidades. Mas engana-se que Chico estava levando a vida na flauta: nos intervalos em que se recolhe, ele produz outros registros. De lá pra cá, por exemplo, lançou seu quarto romance, Budapeste, revisou traduções de outros livros, fez o show Cidades, no Brasil e exterior, produziu letras para a peça Cambaio, fez o documentário O país da delicadeza perdida e uma série de especiais para a DirectTV. E nesses últimos 42 anos, com hiatos mais longos ou mais curtos quanto aos discos solo, foi assim.
Rita - Mas o que mudou radicalmente, nesse tempo, foi a voracidade da própria mídia, o culto às celebridades, propaganda tratada como informação, e um vazio na cultura, herança do regime militar, potencializado pelos ditames do mercado. Sedenta por fofocas e por colocar mais lenha no inferno - como se não houvesses assuntos de interesse público que mereçam mais aprofundamento , Chico também esteve na mídia protagonizando um caso de infidelidade conjugal, no ano passado, num caso de invasão de privacidade tamanha, encabeçado pela fascista Veja, de alguém que sempre fez da coerência sua ética.
Antonio - Chico admite que, ao participar de festivais, buscava reconhecimento para o seu trabalho, mas disso acabou advindo outra coisa, como revelou numa entrevista em 2004. Diz ele: “Logo aparece a fama boba, oca, que é a sombra do reconhecimento e que fala se o artista está gordo ou com quem vai para a cama. Há 40 anos não era assim. Tem gente que persegue essa fama que não corresponde a nada. É insólito. Nunca vi um movimento geral de idiotice como o de agora. Mas em meu país, de 15 anos para cá, vem crescendo perigosamente. A idiotice nos rodeia, eu mesmo tenho medo de me tornar idiota”.
Mabel - Mas o medo da idiotice que se abate sobre o país- menor talvez do que o da violência - mas ambos com razões muito concretas , certamente têm uma mesma origem. E as músicas e letras de Chico são um oásis nessa aridez, um farol nessas décadas para os que acreditam que é preciso e possível mudar, não aceitar as arbitrariedades do poder público, intervir contra a banalização da vida humana e estar consciente dos próprios afetos.
Marcos - A professora de literatura da USP e Unicamp, Adélia Bezerra de Meneses, que tem dois livros dedicados à poética de Chico Buarque, identifica três dimensões da sua obra musical, seguindo esquema de Alfredo Bosi em Literatura e resistência. Uma dimensão seria a utópica, a outra é crítica e, por fim, um lirismo nostálgico. Todas, fazem da obra uma expressão de "poesia resistência" , nas palavras dela, “modalidades de uma radical recusa à realidade opressora, de mercantilização das relações, de surda exploração que vivemos”.
Maria - Uma das principais vítimas da censura do regime militar, Chico se esforça para deixar claro que o argumento que muitos usam - de que naqueles anos a música brasileira era melhor que a atual por conta da ditadura - é um conclusão equivocada. Implantada em 64, até a edição do AI-5, em 1968, a censura deixou as artes em paz e muito foi produzido nesse período. Apenas com o AI-5 é que a barra pesou, e ele constata que é justamente nesse período que sua produção diminui. Sem contar que o que aqueles anos seriam musicalmente tinha a ver com uma extensão do que havia sido plantado em anos anteriores. A crítica que recusa a realidade podemos ouvir nestas letras:
Rita - Agora falando sério -1969 - Agora, falando sério, eu queria não cantar a cantiga bonita que se acredita que o mal espanta. Dou um chute no lirismo, um pega no cachorro e um tiro no sabiá. Dou um fora no violino, faço a mala e corro pra não ver banda passar. Agora, falando sério, eu queria não mentir. Não queria enganar, driblar, iludir tanto desencanto. E você que está me ouvindo, quer saber o que está havendo com as flores do meu quintal ? O amor-perfeito, traindo, a sempre-viva, morrendo e a rosa, cheirando mal. Agora, falando sério, preferia não falar nada que distraísse o sono difícil. Como acalanto eu quero fazer silêncio, um silêncio tão doente do vizinho reclamar e chamar polícia e médico e o síndico do meu tédio pedindo para eu cantar. Agora, falando sério, eu queria não cantar.
Aninha - Deus lhe pague 1971 - Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir. A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir. Por me deixar respirar, por me deixar existir, Deus lhe pague. Pelo prazer de chorar e pelo "estamos aí", pela piada no bar e o futebol pra aplaudir, um crime pra comentar e um samba pra distrair, Deus lhe pague. Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui. O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir. Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi, Deus lhe pague. Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir. Pela fumaça, desgraça, que a gente tem que tossir. Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair, Deus lhe pague. Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir. Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir e pelo grito demente que nos ajuda a fugir, Deus lhe pague. Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir, e pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir e pela paz derradeira que enfim vai nos redimir, Deus lhe pague
Maria - Apesar de você (1970) - Hoje, você é quem manda, falou, tá falado, não tem discussão. A minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão, viu, você que inventou esse estado e inventou de inventar toda a escuridão, você que inventou o pecado esqueceu-se de inventar o perdão. Apesar de você, amanhã há de ser outro dia. Eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia, como vai proibir quando o galo insistir em cantar. Água nova brotando e a gente se amando sem parar. Quando chegar o momento, esse meu sofrimento vou cobrar com juros, juro, todo esse amor reprimido, esse grito contido, este samba no escuro. Você, que inventou a tristeza, ora, tenha a fineza de desinventar. Você vai pagar e é dobrado cada lágrima rolada nesse meu penar. Apesar de você amanhã há de ser outro dia. Inda pago pra ver o jardim florescer qual você não queria. Você vai se amargar vendo o dia raiar sem lhe pedir licença. E eu vou morrer de rir que esse dia há de vir antes do que você pensa. Apesar de você amanhã há de ser outro dia, você vai ter que ver a manhã renascer e esbanjar poesia. Como vai se explicar vendo o céu clarear de repente, impunemente. Como vai abafar nosso coro a cantar na sua frente. Apesar de você, amanhã há de ser outro dia, você vai se dar mal etc. e tal.
Marcos - Apesar de você é de 70, ano que Chico volta do auto-exílio na Itália, para onde tinha ido um ano antes, e vende de cara 100 mil cópias. As demais são recolhidas nas lojas. O clima nesses anos era bem diferente de 65, por exemplo, quando ele fazia parte da vanguarda universitária e participava dos festivais de música das TVs Excelsior e Record. Em 65, lançou seu primeiro compacto, com Pedro Pedreiro e Sonho de um carnaval, e também fez as músicas para a adaptação de Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neta, que venceu o festival de teatro na França. Em 66, em plena ditadura, Chico vence o Festivas da Record com A banda (na verdade, divide prêmio com Disparada, de Théo Barros e Vandré) e, vejam como era a coisa, no ano seguinte já é tratado como fato histórico dando depoimento para Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Nesse ano também conhece Marieta Severo, com quem terá três filhas.
Mabel - Mas a crítica de Chico não se fixa apenas na ditadura. Os desdobramentos e a vocação da política brasileira de desrespeitar o cidadão em seus direitos mais básicos, indignam o compositor que, mais uma vez, vai ter uma postura que caberia - se a palavra democracia fosse mais que uma palavra entre nós - à instituição jornalística, por exemplo, em pluralizar as vozes do debate público e deixar falar todos os agentes da sociedade. E é certamente um traço de quando aquele jovem da classe média optou pelo samba para entrar na música brasileira.
Rita - O meu guri 1981 - Quando, seu moço, nasceu meu rebento, não era o momento dele rebentar. Já foi nascendo com cara de fome e eu não tinha nem nome pra lhe dar. Como fui levando, não sei lhe explicar, fui assim levando, ele a me levar, e na sua meninice ele um dia me disse que chegava lá.
Olha aí, olha aí, olha aí, o meu guri. E ele chega. Chega suado e veloz do batente e traz sempre um presente pra me encabular, tanta corrente de ouro, seu moço, que haja pescoço pra enfiar. Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro: chave, caderneta, terço e patuá. Um lenço e uma penca de documentos Pra finalmente eu me identificar. Chega no morro com o carregamento: pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador. Rezo até ele chegar cá no alto essa onda de assaltos tá um horror. Eu consolo ele, ele me consola, boto ele no colo pra ele me ninar, de repente acordo, olho pro lado e o danado já foi trabalhar, olha aí, o meu guri. E ele chega. Chega estampado, manchete, retrato
com venda nos olhos, legenda e as iniciais Eu não entendo essa gente, seu moço, fazendo alvoroço demais. O guri no mato, acho que tá rindo, acho que tá lindo de papo pro ar. Desde o começo, eu não disse, seu moço, ele disse que chegava lá? Olha aí, olha aí. Ai, o meu guri.
Marcos - Bancarrota blues - Uma fazenda com casarão, imensa varanda. Dá jerimum, dá muito mamão, pé de jacarandá. Eu posso vender. Quanto você dá? Algum mosquito, chapéu de sol, bastante água fresca. Tem surubim, tem isca pra anzol, mas nem tem que pescar. Eu posso vender. Quanto quer pagar? O que eu tenho eu devo a Deus: meu chão, meu céu, meu mar. Os olhos do meu bem e os filhos meus, se alguém pensa que vai levar... Eu posso vender. Quanto vai pagar? Os diamantes rolam no chão, o ouro é poeira, muita mulher pra passar sabão, papoula pra cheirar. Eu posso vender. Quando vai pagar? Negros quimbundos pra variar, diversos açoites, doces lundus pra nhonhô sonhar à sombra dos oitis. Eu posso vender. Que é que você diz? Sou feliz e devo a Deus meu éden tropical, orgulho dos meus pais e dos filhos meus, ninguém me tira nem por mal. Mas posso vender. Deixe algum sinal.
Aninha - Sinhazinha - Tá na hora de acordar, sinhazinha, que tem muito o que fazer. Tem cabeça pra tratar, tem que ler caderno B, hora no homeopata, fita no vídeo-clube. Tá na hora de acordar, tem a vida pra viver, tem convite pra dançar, telefone pra você, namorado pra brigar, vinho branco pra esquecer.
Tá na hora de acordar, sinhazinha, eu não chamo uma outra vez. Que tem búzio pra jogar, tem massagem no chinês, instituto de ioga, coleção nas vitrines. Tá na hora de acordar, tá na idade de querer namorado pra casar,
casamento pra sofrer, a cabeça pra dançar e a vontade de morrer, disco novo pra rodar, vinho branco pra esquecer.
Antonio - Hino da repressão - Se atiras mendigos no imundo xadrez com teus inimigos e amigos, talvez, a lei tem motivos pra te confinar nas grades do teu próprio lar. Se no teu distrito tem farta sessão de afogamento, chicote garrote e punção, a lei tem caprichos, o que hoje é banal um dia vai dar no jornal. Se manchas as praças com teus esquadrões sangrando ativistas, cambistas, turistas, peões, a lei abre os olhos, a lei tem pudor e espeta o seu próprio inspetor. E se definitivamente a sociedade só te tem desprezo e horror, e mesmo nas galeras és nocivo, és um estorvo, és um tumor, que Deus te proteja, és preso comum, na cela faltava esse um.
Maria - Levantados do chão - Como então? Desgarrados da terra? Como assim? Levantados do chão? Como embaixo dos pés uma terra, como água escorrendo da mão? Como em sonho correr numa estrada? Deslizando no mesmo lugar? Como em sonho perder a passada e no oco da terra tombar? Como então? Desgarrados da terra? Como assim? Levantados do chão? Ou na planta dos pés uma terra como água na palma da mão? Habitar uma lama sem fundo? Como em cama de pó se deitar? Num balanço de rede sem rede ver o mundo de pernas pro ar? Como assim? Levitante colono? Pasto aéreo? Celeste curral? Um rebanho nas nuvens? Mas como? Boi alado? Alazão sideral? Que esquisita lavoura! Mas como? Um arado no espaço? Será? Choverá que laranja? Que pomo? Gomo? Sumo? Granizo? Maná?
Mabel - Todas essas questões, da pobreza, do tráfico, na classe média em sua má conscência e a luta do MST por exemplo, voltam a ser ecoados na música de Chico Buaque, como a própria moral de sua obra. Por isso, parece banal, quando há tanto para se falar, os jornais optarem, por exemplo, em fazer matérias tentando explicar a beleza de Chico Buaque. Numa dessas, é feita uma enquete com vários especialistas e fãs famosos. Vejam só, nessa matéria de Lula Branco Martins e Andrea Thompson. A beleza, tudo leva a crer, são os olhos:
Marcos - ''Chico tem olhos de gatão selvagem, dos grandes gatos do mato, olhos glaucos, iluminados''. Quem foi? Tom Jobim. O cirurgião plástico Carlos Almeida observa que os olhos claros de Chico são um ''atrativo a mais'' num país latino, como o Brasil. Seus olhos azuis e sua verve poética e aura romântica lhe garantiriam a adjetivação de ''quase um anjo sexual''. A dermatologista Paula Bellotti vai sem metáforas na sua opinião: Chico Buarque é bonito porque tem ''cara de homem''. O insólito da pergunta recebe resposta à altura do diretor José Celso Martinez: “Seus olhos são dois ovos estrelados sobre um fígado cru”. E Ivo Pitanguy, por fim, se sai com ''ele está envelhecendo bem. Parece uma pessoa que está ok consigo mesma, em paz com a sua imagem''. E conclui: ''Enquanto Chico não tiver rugas na alma, ele estará bem''. E talvez seja uma consideração sobre rugas na alma que ele evitou toda a vida, como dizia na música O velho, de 1968.
Rita - O velho, sem conselhos, de joelhos, de partida, carrega com certeza todo o peso da sua vida. Então eu lhe pergunto pelo amor. A vida inteira, diz que se guardou do carnaval, da brincadeira que ele não brincou e diga agora: o que é que eu digo ao povo, o que é que tem de novo pra deixar, nada. Só a caminhada longa, pra nenhum lugar. O velho de partida deixa a vida sem saudades, sem dívida, sem saldo, sem rival ou amizade. Então eu lhe pergunto pelo amor. Ele me diz que sempre se escondeu, não se comprometeu nem nunca se entregou. Me diga agora o que é que eu digo ao povo, o que é que tem de novo pra deixar. Nada, eu vejo a triste estrada onde um dia eu vou parar. O velho vai-se agora, vai-se embora, sem bagagem, não sabe pra que veio, foi passeio, foi passagem. Então eu lhe pergunto pelo amor. Ele me é franco: mostra um verso manco de um caderno em branco que já se fechou. Me diga agora o que é que eu digo ao povo, o que é que tem de novo pra deixar. Não foi tudo escrito em vão. Eu lhe peço perdão, mas não vou lastimar.
Antonio - De qualquer forma, o nhém-nhém-nhém da imprensa quanto às futilidades parece ser mais útil - na lógica de quem decide fazer tais publicações - do que repercutir ou ir a fundo em declarações que fazem pensar. O nível de elaboração e complexidade crescentes nos trabalhos de Chico Buarque se antagonizam ao processo de banalização que orienta os novos princípios que alimenta olhos e ouvidos do público - que quer, ele mesmo, se ver na TV, de qualquer jeito, custe o que custar: sua reputação, sua privacidade, o que resta. Diz Chico:
Maria - “Como não se vê perspectiva de mudança a curto ou mesmo a médio prazo, a sociedade toda é levada a um certo conformismo, ou mesmo a um cinismo. Na alta classe média, assim como já houve um certo esquerdismo de salão, há hoje um pensamento cada vez mais reacionário, com tintas de racismo e de intolerâncias impressionantes. O medo da violência na classe média se transforma também em repúdio não só ao chamado marginal, mas aos pobres em geral, ao sujeito que tem um carro velho, ao sujeito que é mulato, ao sujeito que está mal vestido. Toda essa indústria da glamourização, de quem pode, de quem ostenta, de quem torra dinheiro -enfim, ser reacionário se tornou de bom tom”.
Marcos - As cores da sua identificação com o Rio de Janeiro, tematizado pelas suas músicas, vão ficando mais densas como a moldura social e os tempos que vivemos. Ao contrário do ministro da cultura, que recentemente disse que o Rio é igual a qualquer metrópole, e que não há nada errado na insegurança com que vivem seus habitantes, Chico contrapõe sua crença de que há mesmo uma espécie de apartheid social, como disse em entrevista, em 2005.
Aninha - “O clima hoje na cidade é muito mais pesado. Para não falar lá de cima, na própria zona sul já há territórios demarcados. Eu conheci a praia como um espaço democrático. Hoje em dia já se sente no ar a idéia de que vai existir logo uma fronteira entre Ipanema e o Leblon. Tem um pessoal na altura do Jardim de Alá [moradores de um cortiço na rua do canal que divide Ipanema e Leblon] que desce ali e ocupa a praia. Vira uma paranóia, vira uma hostilidade com esses garotos que ficam circulando ali. Assaltar na praia é o pior negócio que existe. De vez em quando acontece. No dia seguinte, vem a polícia e enfia os meninos no camburão, quando não faz coisa pior. Eles querem tirar da praia, sumir com eles dali. Não vai ter onde botar esses meninos.
As soluções sugeridas para isso, as coisas que eu leio nas cartas dos leitores dos jornais, em geral são fascistas. Virou moda responder a quem defende os direitos humanos com o trocadilho infame dos "humanos direitos" contra os vagabundos que nos retiram o direito de andar livremente pelo calçadão. Isso quando não se defende abertamente a pena de morte, a reclusão dos garotos de rua, a diminuição da maioridade penal, a prisão perpétua. Eles querem exterminar com os pobres do Rio. Se puderem sumir com aquilo tudo - ótimo. Os meninos são os inimigos, são os nossos árabes, são os nossos muçulmanos”.
Maria - Ode aos ratos - Rato de rua, irrequieta criatura, tribo em frenética proliferação. Lúbrico, libidinoso transeunte, boca de estômago atrás do seu quinhão vão aos magotes a dar com um pau levando o terror do parking ao living, do shopping center ao léu, do cano de esgoto pro topo do arranha-céu. Rato de rua, aborígine do lodo, fuça gelada, couraça de sabão. Quase risonho profanador de tumba, sobrevivente à chacina e à lei do cão, saqueador da metrópole, tenaz roedor de toda esperança, estuporador da ilusão, ó meu semelhante, filho de Deus, meu irmão.
Antonio - “Eu não vejo outra saída para a violência ligada ao tráfico senão a descriminalização de alguma forma, não sei se total ou parcial, das drogas. Lembro de ter lido nos jornais que o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, era favorável a essa idéia quando tomou posse. Não sei porque o governo não levou e não leva essa discussão adiante. Isso pode ser desgastante para os índices de popularidade do governo, talvez por isso ninguém toque no assunto”.
Mabel - Nesse estado de coisas, é possível entender porque são tão atuais muitas de suas composições. Mas é nos seus romances, Estorvo, Benjamim e Budapeste que ele simula esse estado de coisas - representa nossa objetividade em crise, nossa impossibilidade de definir os contornos do público e do privado, da duplicidade e repetição das identidades e dos valores neoliberais que também significam miséria e tráfico. Onde quer que esteja, com quem quer que seja.
Maria - Depois das músicas de Morte e Vida Severina, de 65, Chico se aproxima mesmo do teatro e produz Roda Viva (68), em que detona o show-biz e a máquina, a televisão, que transforma artistas em pura mercadoria descartável. Com direção de José Celso Martinez Correa, que fez uma montagem radical, o espetáculo foi vítima da ação do Comando de Caça aos Comunistas , o CCC, que destruiu cenário e agrediu atores e técnicos durante um ensaio. Calabar (73), foi a segunda, escrita em parceria com Ruy Guerra, que revisava o personagem histórico Calabar e seu alinhamento com os holandeses em detrimento dos portugueses, no Brasil Colônia, que tinha produção de Fernanda Montenegro e Fernando Torres e, quando já estava pronta para estrear ficou vários anos censurada.
Antonio - Depois montou Gota D´ água (75), escrita com Paulo Pontes, adaptação de Medéia, de Eurípedes e, por fim, o musical Ópera do Malandro, de 78. Depois disso, Chico mantém sua produção sob encomenda, com parcerias com Edu Lobo, na trilha do balé Guaíra, em O grande circo místico, Suburbano coração, de Naum Alvez de Souza e, mais recentemente, Cambaio, de Adriana e João Falcão. A gente vê agora um trecho de Gota d´água, considerada por muitos um clássico da dramaturgia brasileira, que teve originalmente Bibi Ferreira no papel principal e que Rita Assemany vai fazer um trecho pra gente. Num conjunto habitacional, Joana, essa Medéia suburbana, é abandonada por seu companheiro, o sambista Jasão, que fica com a filha de um manda-chuva da área, Creonte em busca de sucesso e poder.
(Rita performance + música)
Marcos - Essa mulher poderosa, forte, tomada de paixão e senso de justiça, é uma da muitas na galeria de personagens femininos de Chico, que, para muitos, é quem melhor canta a alma feminina na canção popular. Essas mulheres vão assumindo várias facetas, indo da mulher acolhedora, da que desatina e quer fazer da vida um carnaval, e também a que se confronta com os padrões estabelecidos, quer da própria feminilidade, da maternidade e outras dimensões do gênero. Vamos ouvi-las?
Maria - Com açúcar, com afeto - Com açúcar, com afeto, fiz seu doce predileto pra você parar em casa. Qual o quê! Com seu terno mais bonito você sai, não acredito quando diz que não se atrasa. Você diz que é operário, vai em busca do salário pra poder me sustentar. Qual o quê! No caminho da oficina há um bar em cada esquina pra você comemorar sei lá o quê! Sei que alguém vai sentar junto, você vai puxar assunto discutindo futebol. E ficar olhando as saias de quem vive pelas praias coloridas pelo sol. Vem a noite e mais um copo, sei que alegre ma non troppo você vai querer cantar, na caixinha um novo amigo vai bater um samba antigo pra você rememorar. Quando a noite enfim lhe cansa você vem feito criança pra chorar o meu perdão. Qual o quê! Diz pra eu não ficar sentida, diz que vai mudar de vida pra agradar meu coração. E ao lhe ver assim cansado, maltrapilho e maltratado, ainda quis me aborrecer. Qual o quê! Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato e abro os meus braços pra você
Mabel - Atrás da porta - Quando olhaste bem nos olhos meus e o teu olhar era de adeus, juro que não acreditei. Eu te estranhei. Me debrucei sobre teu corpo e duvidei. E me arrastei e te arranhei, e me agarrei nos teus cabelos, nos teus pelos, teu pijama, nos teus pés, ao pé da cama, sem carinho, sem coberta. No tapete atrás da porta reclamei baixinho. Dei pra maldizer o nosso lar, pra sujar teu nome, te humilhar e me vingar a qualquer preço te adorando pelo avesso pra mostrar que inda sou tua. Só pra provar que inda sou tua...
Aninha - Tatuagem - Quero ficar no teu corpo feito tatuagem que é pra te dar coragem pra seguir viagem quando a noite vem. E também pra me perpetuar em tua escrava, que você pega, esfrega, nega, mas não lava. Quero brincar no teu corpo feito bailarina que logo se alucina, salta e te ilumina quando a noite vem. E nos músculos exaustos do teu braço, repousar frouxa, murcha, farta, morta de cansaço. Quero pesar feito cruz nas tuas costas, que te retalha em postas mas no fundo gostas quando a noite vem. Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva, marcada a frio, a ferro e fogo: em carne viva. Corações de mãe, arpões, sereias e serpentes, que te rabiscam o corpo todo, mas não sentes.
Antonio - Olhos nos olhos - Quando você me deixou, meu bem, me disse pra ser feliz e passar bem. Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci, mas depois, como era de costume, obedeci. Quando você me quiser rever, já vai me encontrar refeita, pode crer. Olhos nos olhos, quero ver o que você faz, ao sentir que sem você eu passo bem demais. E que venho até remoçando, me pego cantando sem mas nem porque. E, tantas águas rolaram, quantos homens me amaram bem mais e melhor que você. Quando talvez precisar de mim ,'cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim. Olhos nos olhos, quero ver o que você diz, quero ver como suporta me ver tão feliz.
Aninha - Folhetim - Se acaso me quiseres sou dessas mulheres que só dizem sim, por uma coisa à toa, uma noitada boa, um cinema, um botequim. E, se tiveres renda, aceito uma prenda, qualquer coisa assim como uma pedra falsa, um sonho de valsa ou um corte de cetim. E eu te farei as vontades, direi meias verdades sempre à meia luz. E te farei, vaidoso, supor que és o maior e que me possuis. Mas, na manhã seguinte, não conta até vinte, te afasta de mim, pois já não vales nada, és página virada, descartada do meu folhetim.
Rita - A história de Lily Braun - Como num romance, o homem dos meus sonhos me apareceu no dancing. Era mais um. Só que num relance os seus olhos me chuparam feito um zoom. Ele me comia com aqueles olhos de comer fotografia. Eu disse: cheese. E de close em close fui perdendo a pose e até sorri, feliz. E voltou, me ofereceu um drinque, me chamou de anjo azul. Minha visão foi desde então ficando flou. Como no cinema, me mandava às vezes uma rosa e um poema. Foco de luz. Eu, feito uma gema, me desmilingüindo toda ao som do blues. Abusou do scotch, disse que meu corpo era só dele aquela noite. Eu disse: please. Xale no decote, disparei com as faces rubras e febris. E voltou no derradeiro show com dez poemas e um buquê. Eu disse: adeus, já vou com os meus numa turnê. Como amar esposa? Disse ele que agora só me amava como esposa, não como star, me amassou as rosas, me queimou as fotos, me beijou no altar. Nunca mais romance, nunca mais cinema, nunca mais drinque no dancing. Nunca mais cheese. Nunca uma espelunca, uma rosa nunca, nunca mais feliz.
Marcos - A violeira - Desde menina, caprichosa e nordestina, que eu sabia, a minha sina era no Rio vir morar. Em Araripe, topei com o chofer dum jipe que descia pra Sergipe pro serviço militar. Esse maluco me largou em Pernambuco quando um cara de trabuco me pediu pra namorar. Mais adiante, num estado interessante, um caixeiro viajante me levou pra Macapá. Uma cigana revelou que a minha sorte era ficar naquele norte e eu não queria acreditar. Juntei os trapos com um velho marinheiro e viajei no seu cargueiro que encalhou no Ceará. Voltei pro Crato e fui fazer artesanato de barro, bom e barato, pra mó de economizar. Eu era um broto e também fiz muito garoto, um mais bem feito que o outro, eles só faltam falar. Juntei a prole e me atirei no São Francisco, enfrentei raio, corisco, correnteza e coisa-má. Inda arrumei com um artista em Pirapora mais um filho e vim-me embora, cá no Rio vim parar. Ver Ipanema foi que nem beber jurema, que cenário de cinema, que poema à beira-mar! E não tem tira, nem doutor, nem ziguizira, quero ver quem é que tira nós aqui desse lugar. Será verdade que eu cheguei nessa cidade pra primeira autoridade resolver me escorraçar? Com a tralha inteira remontar a Mantiqueira até chegar na corredeira o São Francisco me levar? Me distrair Nos braços de um barqueiro sonso, despencar na Paulo Afonso,no oceano me afogar? Perder os filhos em Fernando de Noronha e voltar morta de vergonha pro sertão de Quixadá? Tem cabimento, depois de tanto tormento me casar com algum sargento e todo sonho desmanchar? Não tem carranca, nem trator, nem alavanca, quero ver quem é que arranca nós aqui desse lugar
Maria - Sob medida - Se você crê em Deus, erga as mãos para os céus
e agradeça. Quando me cobiçou, sem querer acertou na cabeça. Eu sou sua alma gêmea, sou sua fêmea, seu par, sua irmã. Eu sou seu incesto (seu jeito, seu gesto), sou perfeita porque, igualzinha a você, eu não presto. Traiçoeira e vulgar, sou sem nome e sem lar, sou aquela. Eu sou filha da rua, eu sou cria da sua costela. Sou bandida, sou solta na vida e sob medida pros carinhos seus. Meu amigo, se ajeite comigo e dê graças a Deus. Se você crê em Deus, encaminhe pros céus uma prece. E agradeça ao Senhor. Você tem o amor que merece.
Rita - Uma canção desnaturada - Por que cresceste, curuminha, assim depressa, e estabanada saíste maquilada dentro do meu vestido? Se fosse permitido eu revertia o tempo pra reviver a tempo de poder te ver, as pernas bambas, curuminha, batendo com a moleira, te emporcalhando inteira e eu te negar meu colo. Recuperar as noites, curuminha, que atravessei em claro, ignorar teu choro e só cuidar de mim. Deixar-te arder em febre, curuminha, cinquenta graus, tossir, bater o queixo, vestir-te com desleixo, tratar uma ama-seca. Quebrar tua boneca, curuminha, raspar os teus cabelos e ir te exibindo pelos botequins. Tornar azeite o leite do peito que mirraste, no chão que engatinhaste salpicar mil cacos de vidro, pelo cordão perdido te recolher pra sempre à escuridão do ventre, curuminha, de onde não deverias nunca ter saído.
Antonio - O lirismo de Chico também se aprofunda numa dimensão política - em que não ignora as politicas do corpo, uma vez que não se esgotam as dimensões com que trabalha repressão, sexualidade, machismo e outras esferas da corporalidade.
Aninha - Mar e Lua -Amaram o amor urgente. As bocas salgadas pela maresia, as costas lanhadas pela tempestade naquela cidade distante do mar. Amaram o amor serenado das noturnas praias, levantavam as saias e se enluaravam de felicidade naquela cidade que não tem luar. Amavam o amor proibido, pois hoje é sabido, todo mundo conta, que uma andava tonta, grávida de lua e outra andava nua, ávida de mar. E foram ficando marcadas, ouvindo risadas, sentindo arrepios, olhando pro rio tão cheio de lua e que continua
correndo pro mar. E foram correnteza abaixo, rolando no leito, engolindo água boiando com as algas, arrastando folhas, carregando flores e a se desmanchar. E foram virando peixes, virando conchas, virando seixos, virando areia, prateada areia, com lua cheia e à beira-mar.
Mabel - Amando sobre os jornais - Amando noites afora fazendo a cama sobre os jornais, um pouco jogados fora, um pouco sábios demais. Esparramados no mundo molhamos o mundo com delícias: as nossas peles retintas de notícias. Amando noites a fio, tramando coisas sobre os jornais. Fazendo entornar um rio, e arder os canaviais. Das páginas flageladas sorrimos, mãos dadas e, inocentes, lavamos os nossos sexos nas enchentes. Amando noites a fundo tendo jornais como cobertor, podendo abalar o mundo no embalo do nosso amor. No ardor de tantos abraços, caíram palácios, ruiu um império. Os nossos olhos vidrados de mistério.
Marcos - Sobre todas as coisas - Pelo amor de Deus, não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem? Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém abandonado, pelo amor de Deus. Ao Nosso Senhor, pergunte se ele produziu nas trevas o esplendor. Se tudo foi criado - o macho, a fêmea, o bicho, a flor - criado pra adorar o Criador. E se o Criador inventou a criatura, por favor, se do barro fez alguém com tanto amor para amar Nosso Senhor, não, Nosso Senhor não há de ter lançado em movimento terra e céu,
estrelas percorrendo o firmamento em carrossel pra circular em torno ao Criador. Ou será que o deus que criou nosso desejo é tão cruel ? Mostra os vales onde jorra o leite e o mel, e esses vales são de Deus! Pelo amor de Deus, não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem? Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém abandonado, pelo amor de Deus
Mabel - Chico leva ao extremo o amor em suas músicas, mas admite que, algumas vezes, as paixões são inventadas. Seria o caso de muitas das personagens femininas. Para compor, ele entraria no tal do estado da paixão. Difícil é acreditar que essas letras brotem de uma espécie de impostação. Cabe ao ouvinte, imaginar de que profundezas - do cálculo ou da carne - nascem coisas assim:
Antonio - Até pensei - Junto à minha rua havia um bosque que um muro alto proibia. Lá, todo balão caía, toda maçã nascia e o dono do bosque nem via. Do lado de lá tanta aventura e eu a espreitar na noite escura a dedilhar essa modinha. A felicidade morava tão vizinha que de tolo até pensei que fosse minha. Junto a mim morava minha amada com olhos claros como o dia, lá o meu olhar vivia de sonho e fantasia e a dona dos olhos nem via. Do lado de lá tanta ventura, e eu a esperar pela ternura que a enganar nunca me vinha. Eu andava pobre, tão pobre de carinho que de tolo até pensei que fosses minha. Toda a dor da vida me ensinou essa modinha que, de tolo, até pensei que fosse minha
Rita - Retrato em branco e preto - Já conheço os passos dessa estrada, sei que não vai dar em nada, seus segredos sei de cór. Já conheço as pedras do caminho e sei também que ali sozinho eu vou ficar tanto pior. O que é que eu posso contra o encanto desse amor que eu nego tanto, evito tanto e que no entanto volta sempre a enfeitiçar com seus mesmos tristes velhos fatos que num álbum de retrato eu teimo em colecionar. Lá vou eu de novo como um tolo procurar o desconsolo que cansei de conhecer. Novos dias tristes, noites claras, versos, cartas, minha cara, ainda volto a lhe escrever pra lhe dizer que isso é pecado, eu trago o peito tão marcado de lembranças do passado e você sabe a razão. Vou colecionar mais um soneto, outro retrato em branco e preto a maltratar meu coração
Mabel - Essa última foi feita com o parceiro Tom Jobim, talvez mesmo seu parceiro mais querido, ao lado de Francis Hime, Edu Lobo e Vinícius. Com todos, primeiro Chico recebe a música e depois entrega a letra. Ele diz que certa MPB não tem mais visibilidade porque a valorização da imagem sobre o som da TV faz com que o interesse se desloque para outras coisas que não a música, - e garante não ter a menor pretensão de fazer sucesso na TV.
Aninha - Choro bandido Mesmo que os cantores sejam falsos como eu, serão bonitas, não importa, são bonitas as canções. Mesmo miseráveis os poetas, os seus versos serão bons. Mesmo porque as notas eram surdas quando um deus sonso e ladrão fez das tripas a primeira lira que animou todos os sons. E daí nasceram as baladas e os arroubos de bandidos como eu cantando assim:
Você nasceu para mim Você nasceu para mim. Mesmo que você feche os ouvidos e as janelas do vestido, minha musa, vai cair em tentação. Mesmo porque estou falando grego com sua imaginação. Mesmo que você fuja de mim por labirintos e alçapões, saiba que os poetas como os cegos podem ver na escuridão. E eis que, menos sábios do que antes, os seus lábios ofegantes hão de se entregar assim: Me leve até o fim Me leve até o fim Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso, são bonitas, não importa, são bonitas as canções. Mesmo sendo errados os amantes, seus amores serão bons.
Marcos - Mas, não demora muito, a consciência cidadã se agiganta e ele rompe com o que seria mais marcadamente pessoal e volta a falar com a intenção afirmativa de sua obra nas utopias, na crença do poder transformador diante das atrocidades e quaisquer que sejam suas máscaras. E vemos Chico como tema de samba-enredo da sua Mangueira em 98. E lá corre Chico apaixonado por futebol. O mesmo menino que seria preso aos 17 anos quando puxava carros pra tirar onda na noite paulista e o mesmo que mais tarde, em plena ditadura, cria o personagem Julinho da Adelaide e dá entrevista e tudo como se fosse um novo compositor, pra driblar a censura demonstrar o ridículo e arbitrário. E muitas outras pérolas surgem, nos sideram, nos servem como país imaginário e motor para o que podemos, um dia, quem sabe, viver.
Rita - Rosa dos ventos - E do amor gritou-se o escândalo. Do medo criou-se o trágico. No rosto pintou-se o pálido. E não rolou uma lágrima, nem uma lástima pra socorrer. E na gente deu o hábito de caminhar pelas trevas, de murmurar entre as pregas, de tirar leite das pedras, de ver o tempo correr. Mas, sob o sono dos séculos, amanheceu o espetáculo como uma chuva de pétalas. Como se o céu vendo as penas morresse de pena e chovesse o perdão E a prudência dos sábios nem ousou conter nos lábios o sorriso e a paixão. Pois transbordando de flores a calma dos lagos zangou-se, a rosa-dos-ventos danou-se, o leito dos rios fartou-se e inundou de água doce a amargura do mar numa enchente amazônica, numa explosão atlântica e a multidão vendo em pânico, e a multidão vendo atônita, ainda que tarde, o seu despertar.
Mabel - O que será (À flor da terra) - O que será que será, que andam suspirando pelas alcovas, que andam sussurrando em versos e trovas, que andam combinando no breu das tocas, que anda nas cabeças, anda nas bocas, que andam acendendo velas nos becos, que estão falando alto pelos botecos, que gritam nos mercados, que com certeza está na natureza, será que será, o que não tem certeza nem nunca terá, o que não tem conserto nem nunca terá, o que não tem tamanho.
Antonio - O que será que será, que vive nas idéias desses amantes, que cantam os poetas mais delirantes, que juram os profetas embriagados, que está na romaria dos mutilados, que está na fantasia dos infelizes, que está no dia-a-dia das meretrizes, no plano dos bandidos, dos desvalidos, em todos os sentidos, será que será, o que não tem decência nem nunca terá, o que não tem censura nem nunca terá, o que não faz sentido.
Aninha - O que será que será que todos os avisos não vão evitar, porque todos os risos vão desafiar, porque todos os sinos irão repicar, porque todos os hinos irão consagrar e todos os meninos vão desembestar e todos os destinos irão se encontrar e o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá olhando aquele inferno, vai abençoar, o que não tem governo nem nunca terá, o que não tem vergonha nem nunca terá, o que não tem juízo.
Maria - Vai passar -Vai passar nessa avenida um samba popular. Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar ao lembrar que aqui passaram sambas imortais, que aqui sangraram pelos nossos pés, que aqui sambaram nossos ancestrais. Num tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações, dormia a nossa pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações. Seus filhos erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes erguendo estranhas catedrais E um dia, afinal, tinham direito a uma
alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava carnaval. O carnaval, o carnaval (Vai passar) - Palmas pra ala dos barões famintos! O bloco dos napoleões retintos! E os pigmeus do bulevar! Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar a evolução da liberdade até o dia clarear. Ai, que vida boa, olerê. Ai, que vida boa, olará O estandarte do sanatório geral vai passar. Ai, que vida boa, olerê Ai, que vida boa, olará, o estandarte do sanatório geral Vai passar.
Marcos - A capacidade de se refazer, de se reescrever, que o sentimento de compartilhado nos dá, que também todo amor nos dá, quase como uma utopia do social, encerra nosso o sarau de hoje em homenagem a Chico Buarque, com Rita cantando Soneto, de 1972, que ele fez pro filme Quando o carnaval chegar, de Cacá Diegues. Pra que a gente não esqueça que tal como a história, nossa vida também se lança em movimentos.