Cartas de dor Cartas de alforria
© 2005
· Carta 38 de Mabel Velloso
Depois da retreta, 1979.
Cheguei em casa e você não estava.
Na mesa tudo como deixei.
No quarto tudo nos lugares certinhos.
Você não passou aqui.
Conheço seu jeito de mexer nas coisas.
Você tem esse dom.
Você desarruma tudo, desarrumou até minha vida.
Tirou alegria, vivacidade, entusiasmo do lugar.
Toda vez que busco uma alegria, não sei onde ficou...
Você bagunçou meus sentimentos.
Meu coração era tão bem arrumado,
cada emoção no seu lugar,
as horas certas de um viver bonito
tanta harmonia dentro de mim...
Parecia que uma banda tocava bem afinada no meu viver.
Você chegou como um maestro, obedeci seus gestos silenciosos como aprendiz de filarmônica.
Depois veio o cansaço.
Tudo foi virando de cabeça para baixo, tudo desentoando.
Hoje na praça a música bem tocada tocou meu coração.
Comecei a pensar em minha vida.
Preciso afinar os instrumentos que tocam meu caminho para frente.
Estou resolvida: vá procurar onde reger sua bandinha.
Sua batuta já quebrou pra mim!
Ouço com alegria nova retreta anunciando uma vida nova.
Quero um dobrado de alegria.